Ipatinga, 4 de Julho de 2020
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Poeta verde: Tião cultiva e distribui mudas gratuitamente



“Plantar árvore é mesmo ciência que vale ser cultivada o lado alegre da nossa existência” - trecho de Um país de Ipês, Tião Henriques

Se a idade lhe tirou a destreza, ela não tirou a vivacidade do jornalista aposentado Tião Henriques, de 89 anos. Às vezes, durante a fala ele se perde em um caso ou uma pergunta e começa a vaguear por outras recordações, mas a memória ainda lhe é fiel e sua cabeça quase sem cabelo ainda funciona com sagacidade, enganando qualquer um despercebido. As palavras foram durante muito tempo seu ofício, contudo era nas plantas onde ele encontrava sua paixão. Só de olhar, Tião reconhece uma semente, sabe quando e com que tipo de terra plantá-la, quando regar, como fazê-la crescer. E ele faz. Com frequência - mesmo nos mais inusitados espaços.

Há cerca de dois meses ele doou 40 mudas de árvores diversas para o Instituto Estadual de Florestas (IEF) – todas elas cultivadas no apartamento em que mora com a filha, no Bairro Santo Antônio, região Centro-Sul da capital mineira. “Tornou-se uma mania, uma mania saudável, apanhar sementes. Sempre que passava por árvores, andando pela cidade, trazia para casa e as colocava para germinar”, conta.

É só esperar crescer o suficiente que ele tenta encontrar um novo lar para as companheiras. Nos parques das Mangabeiras e Municipal, ambos de BH, várias árvores foram semeadas por ele. O hobby também rendeu doações às prefeituras de Contagem, Raposos e Rio Acima.

Ele e a filha discordam de quando a "mania" começou. A professora aposentada Heloísa Helena Araújo Henriques, de 57 anos, lembra que em meados de 1990 Tião fez as primeiras doações ao Parque das Mangabeiras, onde atuava como voluntário. “Foi antes daquilo até”, insiste o jornalista. “Desde os anos 1980 que eu faço isso, em várias moradias e cidades por onde passei. Desde que houvesse um espaçinho”, afirma.

No parque, ele diz que trabalhou com semeadura de plantas. “Tenho vontade de ir lá para ver as mudas que eu plantei”, confessa. Mas a prática começou quase uma década mais cedo, quando Tião frequentava a sede campestre do sindicato dos jornalistas. “Fiz muitas mudas lá”, relata. O conhecimento, ele diz ter surgido de leitura, já a paixão vem ainda da época de garoto. “Eu estudava no colégio Arnaldo quando disse para meu pai que queria ser engenheiro agrônomo. Ele tinha uma visão muito estreita e quis que eu fosse bancário”. E assim foi.

O trabalho como bancário – curiosamente no extinto Banco da Lavoura - não durou muito e, de lá ele apostou no jornalismo. No final da década de 1940 ele entrou como revisor no Correio de Minas, de onde seguiu para o Diário de Minas e, depois, Diário do Comércio. A passagem final na profissão foi no Estado de Minas, onde foi repórter de esportes, revisor de texto.

Depois de aposentado, o cultivo de plantas passou a tomar a maior parte do tempo dele. O custo é pago do próprio bolso e todo o resultado é distribuído gratuitamente. “Não faço nada como em produção industrial, no procedimento comercial, onde são todas iguaizinhas. Nas minhas cada uma tem o saco de um tamanho diferente”. As sementes são coletadas em todo e qualquer lugar. Na casa dele, aliás, fruta chupada não tem semente jogada fora. “Um abacate com que me delicio eu não jogo semente fora. Até a jabuticaba eu uso para fazer muda e olha que elas demoram dez anos para crescer”, diz.

Muito antes de sustentabilidade ser um assunto em pauta, Tião já pregava valores ambientais para sua família. “O papai sempre teve e passou para a gente essa consciência em relação ao meio ambiente. Sempre foi uma coisa natural aqui em casa de não jogar as coisas na rua, não desperdiçar. Hoje as pessoas têm essa postura, mas ele teve isso desde sempre e a gente cresceu com esse ensinamento”, diz Heloísa.

Segundo o aposentado, assim ele vai continuar a ser. “Enquanto eu tiver forças”, ressalta. “Dá uma satisfação enorme quando vejo uma árvore que eu plantei grande. E esses são fatores que me ajudam a seguir: o bom humor, a solidariedade humana e nunca ter fumado um cigarro”, brinca.

A paixão pela fauna e pela flora é tamanha que qualquer animal em perigo é alvo de ajuda. Até árvores mal cuidadas na rua, viram objetos de cuidado. Não atoa, a natureza foi tema de um livro de poesias escritas por Tião. Intitulado "A Natureza em cantos (cantos, encantos, desencantos, recantos da terra e do mar)", o livro retrata de maneira fiel e lírica esse amor.

Como despedida, fica ao leitor mais um trecho da obra desse amante do verde. Que ele inspire outros Tiões – se não a cultivar, no mínimo valorizar e apreciar a natureza.

“Oremos e batalhemos: a Natureza

Nos implora a nós, veros cidadãos,

Que lhe tiremos a tristeza

Dos campos, das florestas, dos mares

Abrasados, poluídos pelas mãos

Dos insensatos: jardins e pomares

Plantemos e rezemos com firmeza

Pelo solo nosso, pelos nossos irmãos” - trecho de Solitária.

Fonte: http://www.dzai.com.br


 

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